UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO

FACULDADE DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO E DA CULTURA

   

COBERTURA DE LA ELECCION PRESIDENCIAL BRASILENA

POR PERIODICOS ON-LINE DEL MERCOSUR

 

MESA DE TRABALHO: LOS MEDIOS DEL MERCOSUR ANTE

LA ECONOMIA Y CULTURA GLOBALES

PROFESSOR ORIENTADOR: ANTONIO DE ANDRADE

PESQUISADORES: LEANDRO A. F. ANDRADE, ELOUISA PINTO,

MÔNICA MANFRINI , CLÁUDIA MARIA,

CRISTIANE CARCANHETI, DÉBORA MIRANDA,

CIBELE CARBONE, , LISANDRA MAIOLI E

LURIAM C. LULA DA SILVA.

 1. INTRODUÇÃO

Este trabalho busca analisar como os principais jornais "on line" pertencentes dos países do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai ) cobriram a eleição presidencial brasileira de 1998. O tema é de particular interesse na área de Comunicação Social, se for considerada a interdependência entre as economias destes países e a constante mudança no cenário econômico mundial onde o fenômeno da globalização faz com que os países sofram o impacto imediato dos acontecimentos de maior relevância. Além disso, trata-se da inédita possibilidade de ocorrer uma reeleição presidencial no país.

Sabendo-se da existência de mútuos interesses entre os países do Mercosul, pretende-se identificar uma possível preferência dos jornais analisados por um dos candidatos à presidência do Brasil. Outro fato relacionado ao tema desta pesquisa diz respeito ao impacto político criado pela harmonização das relações diplomáticas e comerciais decorrentes do êxito do Tratado de Assunção, que deu origem ao Mercosul. No caso da eleição brasileira, fica demonstrado, nas diversas declarações dos agentes políticos – em especial o presidente argentino – pela continuidade político-administrativa no Brasil, o que garantiria novos avanços no acordo estabelecido.

Como regra do bom jornalismo, num cenário de consolidação da democracia nos parceiros do Mercosul, é de esperar- se que a cobertura dos principais jornais seja eficiente, pluralista, esclarecedora da realidade e imparcial na cobertura dos acontecimentos.

Neste trabalho, buscou-se apoio nos textos de diversos autores, entre os quais, Juarez Bahia, Clóvis de Barros Filho e Luiz Beltrão, para estruturar uma fundamentação teórica que, juntamente com a análise de conteúdo realizada, nos levam a uma adequada compreensão do tema.

 

2. DESCRIÇÃO DA PESQUISA

Com a consolidação do processo de integração entre o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, formando o bloco Mercosul, a partir de 1991, torna-se essencial analisar a forma como o Brasil é retratado por países tão próximos ao nosso, principalmente num período como o de uma eleição presidencial. Tal fato é de extrema importância na formação do "imaginário" que cada povo faz de seus parceiros, etapa fundamental para a superação dos estereótipos e a consolidação de uma parceria que envolva todos os segmentos destas sociedades.

Para tanto, analisou-se dois dos principais jornais "on line" de cada país. Na Argentina, o Clarín e o La Nacion. No Uruguai, EI País e El Observador e no Paraguai, ABC Color e Noticias. Estes jornais podem ser acessados via Internet em qualquer lugar do mundo. Para esta análise escolheu-se um período de dez dias: 27 de setembro a 06 de outubro de 1998. A eleição brasileira foi realizada no dia 3 de Outubro.

 

3. METODOLOGIA

A partir da seleção de reportagens e editoriais que citavam a realidade e a política brasileira, foi realizada uma análise de conteúdo qualitativa, tentando-se desvendar o posicionamento de cada jornal e a forma como transmitiram as notícias ao leitor e, principalmente, se algum candidato foi privilegiado e o porque disto (foram considerados os interesses que cada pais tem no Brasil).

 

No. de Reportagens - ARGENTINA

67

No. de Reportagens - URUGUAI

18

No. de Reportagens - PARAGUAI

02

No. de Editoriais

03

No. de Reportagens + Editoriais

90

 

O problema proposto para o trabalho ficou assim definido: Os jornais "on line" do Mercosul cobriram com imparcialidade a eleição presidencial brasileira ? E a hipótese elaborada foi a seguinte: Os jornais "on line" do Mercosul, mostraram a eleição presidencial brasileira dando como certa a reeleição de Fernando Henrique Cardoso e, sugerindo por meio de reportagens e editoriais, ser esta a melhor opção para o bloco.

 

4. ANÁLISE DOS RESULTADOS

La Nacion (Argentina): Total de 31 reportagens e um editorial publicados

La Nacion deu ampla cobertura à eleição presidencial brasileira mantendo uma jornalista em Brasília e um correspondente em São Paulo. Em momento algum o jornal esconde sua predileção pelo candidato Fernando Henrique Cardoso, como no editorial do dia 2 de outubro, quando deixa claro que "no atual contexto econômico social, a eventual reeleição de Cardoso assume importância decisiva: encarna uma postura estratégica e técnica que em geral se espera para a consolidação da potencialidade brasileira. Frente a ele, como principal candidato está o opositor Luiz Inácio Lula da Silva (...) dirigente com carisma populista que poderia antecipar a adoção de transformações estruturais e rumos altamente negativos no tocante as urgências atuais". Ainda em relação a Lula, o jornal informa que o "ex-metalúrgico de 52 anos e que nunca completou o segundo grau (...) não conseguirá novamente realizar o sonho de chegar ao Planalto". O uso de um editorial, nesse caso, é explicado por Juarez Bahia: "A opinião claramente expressa, com um propósito crítico, construtivo, enunciada de modo a inspirar e a produzir soluções práticas - este é o tipo de opinião que a publicação da empresa pode editorializar, sem o risco de cair em distorções". Um dia após a eleição, o jornal mostra que FHC teve um "grande triunfo" nas urnas e que o presidente argentino Carlos Menem se dizia "muito contente" com sua vitória. Colocar a reação do presidente argentino tem uma razão para Clóvis de Barros. "Notícia internacional é que desestrangeiriza o externo e o faz interno, que relaciona com seu relato, todos os homens, precisamente por suas características de ser relevante atual e interessante em escala supranacional". La Nacion também dá amplo destaque à situação econômica brasileira e o fato dos brasileiros não estarem tão preocupados com essa eleição como estavam com as de 1989 e 1994. "Há quatro dias das eleições o clima da eleição é morno (...) A sensação geral é que Fernando Henrique já ganhou e a maior preocupação é com as duras medidas que virão após 4 de outubro, ou seja, o Plano Real II que está em elaboração e pode incluir um grande aumento de impostos". Em relação ao candidato Ciro Gomes, La Nacion o cita "como a surpresa em uma eleição sem surpresas e que no futuro poderá ocupar o lugar de Lula". Nas poucas vezes que os demais candidatos forma citados, o jornal usa um tom pejorativo. Define Enéas Carneiro como "o candidato mais pitoresco dos que competem nessa eleição" e o candidato Levy Fidélis é apontado como "um personagem aparentemente surgido de algum capítulo das histórias de Asterix". La Nacion relata de forma irônica alguns fatos que ocorreram no dia da eleição, tais como a tentativa de roubo, na véspera da eleição, de uma urna eletrônica. O jornal se pergunta, "o que o ladrão iria fazer com a urna?" Outro fato citado foi que os brasileiros "não puderam desfrutar da sua tradicional cerveja ou caipirinha", devido a lei seca em todo país. Mesmo assim, o jornal esclarece que o Rio de Janeiro continuou em "festa, já que nenhum comerciante foi punido". Weaver explica o uso de dados pitorescos como estes na cobertura das eleições presidenciais: "(... ) a dependência que tem cada receptor, para satisfazer sua curiosidade, em relação ao produto mediático, será um fator determinante do agenda setting ". Ou ainda na opinião de Juarez Bahia, "A arte de escrever para jornal deve considerar a psicologia do leitor moderno afetado por um volume sempre crescente de informações produzidas por diferentes vias, em cada 24 horas ".

 

Clarín (Argentina): Maior cobertura - 36 reportagens e um editorial publicados

O jornal Clarín é o mais vendido na Argentina, foi o que mais publicou notícias sobre a eleição presidencial, fez uma cobertura bastante ampla e manteve dois enviados especiais em São Paulo e em Brasília. Este é um fato positivo desde que obedecidos critérios editoriais. "Oferecer ao leitor uma série de dados isolados não contribui para a redução da complexidade social, pois tirava o receptor da ignorância dos fatos para deixá-lo na confusão dos fatos". A grande maioria das reportagens teve uma explicação crítica e séria da situação econômica do país, muitas vezes, até mais aprofundadas daquelas encontradas na maioria dos jornais brasileiros. "A notícia que chega ao público é uma notícia elaborada, é mais do que a genuína informação". Consciente da realidade, Clarín apresenta o Brasil como um país que entrará em crise e que viverá em situação delicada. Antes mesmo da mídia brasileira falar nessa hipótese, Clarín afirma: " Sabe-se que virá um duríssimo ajuste que incluirá drásticos cortes de gastos, incluindo os sociais, aumento de impostos e demissão de funcionários públicos. Também se mostra como inevitável um acordo com o FMI. O que intriga é a exata natureza do pacote e quando entrará em vigência". Essa consciência jornalística retrata a principal função do jornalismo: divulgar a informação, exatamente como ela aconteceu. No editorial publicado em 03 de outubro, apesar da cobertura priorizar a informação, Clarín demonstra sua preferência pela reeleição de Fernando Henrique. "Não é de se estranhar que todas as capitais do mundo cruzem os dedos para que no domingo a profecia se cumpra e Fernando Henrique obtenha um novo mandato presidencial em um único turno". Esta preferência por FHC foi explicitada depois da análise de dados econômicos dos dois países. Sabe-se do amplo interesse argentino na continuidade do Plano Real já que a economia Argentina está fortemente vinculada com a do Brasil, além do Brasil ser responsável por 40% das exportações daquele país. Neste editorial fica clara a preferência por FHC e as razões pelas quais o leitor deva referendar esta posição. "As pessoas agendam seus assuntos, suas conversas em função do que a mídia veicula. É o que sustenta a hipótese do agenda setting. É um tipo de efeito social da mídia. É a hipótese segundo a qual a mídia, pela seleção, disposição e incidência de suas notícias, vem determinar os temas sobre os quais o público falará e discutirá". Clarín também publica uma reportagem sobre o misticismo no Brasil, com um conteúdo claramente estereotipado. "As praias são pontos de encontro de homens e mulheres abandonados pela sorte entre litros e litros de cerveja. Um mundo onde o tempo é uma mera convenção do outro mundo, onde não é possível falar em eleições". A difusão destes tipos de estereótipos é responsável pela criação de um imaginário indesejável para os propósitos da integração. "A imprensa é o intermediário cotidiano pelo qual as nações se comunicam, graças ao qual elas se interpenetram e se conhecem. Se esse intermediário preenche corretamente a missão que lhe é incumbida, as nações só tem vantagens a obter. Em contrapartida, se ele a desempenha mal, elas só extrairão prejuízos ". A idéia do Brasil ser o país do Carnaval, da cerveja e da praia, não aparece como regra na cobertura da eleição no Brasil e, mesmo isoladamente, tal estereótipo assume relevância, principalmente por se tratar de um importante veículo formador de considerável parcela da opinião pública. "A opinião do jornalista profissional a serviço da empresa está presente em todas as edições, seja em colunas opinativas a seu cargo, em páginas ou seções especiais ou em reportagens e correspondência sobre fatos e situações que lhe compete ‘cobrir’ como ‘enviado especial’ de confiança do editor".

 

ABC Color (Paraguai): Apenas uma reportagem e um editorial publicado

O mais importante jornal paraguaio, em sua versão "on line", apresentou no período analisado somente uma reportagem e um editorial. O jornal mostra-se favorável ao Fernando Henrique Cardoso, afirma que ele é "a expressão material da vontade popular brasileira de continuar no caminho aberto pelo primeiro mandato governamental do cientista social convertido em político". Na reportagem, o jornal destaca que o Brasil resolveu muitos problemas, que são comuns ao países subdesenvolvidos. "O país conseguiu controlar a inflação, estabilizar a moeda, liberar o controle do Estado sobre a produção, reformar o sistema tributário e regular os gastos públicos". Cabe observar que, apesar de estar informando, o jornal relaciona liga vários acontecimentos positivos e simpáticos a imagem de FHC. "No imenso contexto da comunicação coletiva, a imprensa adquire com as demais fontes do jornalismo a figura própria de agente natural de ligação entre o acontecimento e a massa". Relata ainda que: "Cardoso soube explicar aos brasileiros que teria de tomar duras medidas para manter o país. Teve visão de um estadista, que não pensa somente nos votos na época de eleições". O jornal faz críticas a Luís Inácio Lula da Silva, dizendo que "o dirigente de esquerda trabalhou muito mais contra Cardoso, em vez de oferecer uma proposta aos brasileiros". Termina dizendo que Fernando Henrique é um bom exemplo para toda a região latino-americana, que vive invadida de líderes populistas, oportunistas e ambiciosos. "Não é indispensável ser um cientista político para ser um bom governante(...) O que não se aprende e nem se contrata é a vocação de estadista, de sentimento patriótico e de bom senso e dinamismo pessoal", conclui o jornal.

 

Noticias (Paraguai): Publicou somente uma reportagem

O jornal paraguaio Noticias, de caráter popular, somente reproduziu noticias enviadas pelas agências internacionais. O jornal deu um grande destaque na capa de 4 de Outubro, com uma foto que ocupava 50% da primeira página, onde o presidente Fernando Henrique aparece sorrindo e com os braços abertos. Segundo Gauthier: "Nenhum elemento informativo pode ter maior aparência de objetividade (...) que a imagem. Associada ou não ao texto informativo, a imagem tende a apagar o sujeito (...) ela exige uma apresentação direta, exige que a recebamos como objeto soberano, ela fornece o material e a forma como dados inevitáveis (...) sua visibilidade, sua transparência são trunfos centrais ". O texto da reportagem é fornecida pela Agência Reuters onde explica o que ocorreu no dia da eleição e mostra tendências para o futuro do Brasil. Por fim a reportagem conclui que Fernando Henrique teve uma histórica vitória.

 

El Observador (Uruguai): Cobertura modesta em 11 reportagens publicadas

O jornal uruguaio El Observador não circula aos domingos e não possui caderno internacional aos sábados. A abordagem da eleição presidencial brasileira ficou resumida aos candidatos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Os demais candidatos, com exceção de Ciro Gomes, que foi citado apenas uma vez, não apareceram nas reportagens. As matérias trouxeram desde críticas a promessas dos candidatos até uma análise mais detalhada do impacto dos resultados da eleição presidencial do Brasil no resto do mundo. A apresentação das pesquisas de intenção de votos foram constantes, demonstrando sempre a vantagem de FHC sobre os demais candidatos. Fernando Henrique teve maior espaço nas matérias, mostrando uma clara preferência pelo candidato em relação a Lula. "Cardoso teve mais habilidade para sair na frente, enquanto Lula encontrava dificuldades para explicar um plano de governo que não apresentava propostas claras". Em relação aos candidatos da oposição o jornal manteve uma postura definida. "Consciente do favoritismo de Fernando Henrique e vendo que a crise financeira não diminuiu sua popularidade, a oposição se concentra agora em fazer com que os eleitores votem contra o presidente na primeiro turno para dar a ele uma lição de humildade ao governo". O jornal não editorializou a sua opinião, repassando-a nas reportagens. Tal postura é condenada por Clóvis de Barros: "(...) codificação, marcada por infinitos processos de escolha, é, em grande parte, responsável pela construção da opinião pública sobre os temas selecionados ".

 

El Pais (Uruguai): Pequena cobertura. Somente 7 reportagens publicadas

O jornal uruguaio de maior circulação, utilizou em sua cobertura reportagens que vieram das agências internacionais de notícias (Associated Press, ANSA, Reuters e EFE). Produziu somente duas notícias de redação e nestas deixou claro sua preferência pelo presidente Fernando Henrique, mas alertou para o problema econômico que o país enfrentaria. "Cardoso tem a reeleição assegurada (...) mas terá pouco tempo para festejar (...) porque suas preocupações estarão voltadas para Washington onde seu ministro da Fazenda estará negociando com o FMI condições de ajuda para amenizar os efeitos da crise financeira". Explicar a crise econômica de outro país pode ocasionar impacto junto ao leitor: "Se o universo é um objeto de difícil compreensão e exige, para sua análise, estudo e descrição de conhecimentos prévios, seu tratamento jornalístico acrescenta a essas exigências novos requisitos derivados do modo de ser e de operar da informação contingente". Sobre os candidatos de oposição mostra que Lula "fez duras críticas sobre a crise econômica (...) e somente no final da campanha apresentou propostas". Ciro Gomes é apresentado como "único candidato de uma nova geração entre a uma maioria de dinossauros que domina o cenário político do país desde os tempos da ditadura militar". Apesar das opiniões explícitas sempre constantes em El Pais, nota-se a validade da observação de Juarez Bahia: " Jornalis-mo é, ainda, um processo social e histórico, uma necessidade humana, uma forma de expressão cultural claramente aceito na sociedade moderna".

 

5. CONCLUSÃO

Uma das características inerentes ao processo de globalização é o surgimento de vários blocos econômicos entre países com interesses comuns . Na consolidação destes blocos a mídia exerce papel fundamental ao romper barreiras sócio-culturais, aproximar as nacionalidades e informar a população sobre as vantagens – ou desvantagens – de uma nova configuração geo-política onde a reciprocidade e trocas são valores imperativos . Desta forma considerou-se interessante analisar a forma como os jornais "on line" da Argentina, Uruguai e Paraguai pautaram a cobertura de um fato político que extrapolou a fronteira física destes países.

O resultado obtido não difere muito daquilo que era esperado. O grande vínculo entre as economias do Brasil e Argentina reflete-se na cobertura adotada pelos jornais argentinos . Estes realizaram um amplo e profundo acompanhamento da eleição brasileira. Enviados especiais cobriram, passo a passo, os desdobramentos políticos nas mais importantes cidades brasileiras. Os jornais uruguaios igualmente realizaram uma cobertura eficiente, embora a maior parte do material fosse fornecida por agências internacionais. A cobertura pelos jornais "on line" do Paraguai foi a mais discreta entre os parceiros do Mercosul, crescendo apenas no dia anterior e posterior à eleição. Comparando-se os mesmos jornais impressos paraguaios com suas respectivas edições eletrônicas, estas apresentavam matérias bastante reduzidas, o que deve ser explicado pela fase ainda incipiente dos jornais "on line" paraguaios.

A Argentina, de longe, destacou-se pelo grande interesse na eleição presidencial brasileira em especial nos aspectos econômicos, já que se vislumbrava a possibilidade de uma desvalorização do Real com sérios reflexos na contabilidade portenha. Tal preocupação ficou clara, ao longo da análise das reportagens e editoriais onde uma eventual crise do Real aparece sempre com destaque, em especial pelo interesse na manutenção dos acordos assinados e a aposta em Cardoso como o único candidato capaz de assegurar a estabilidade brasileira e dos países vizinhos. Já no caso uruguaio e paraguaio, a criação do Mercosul significa uma oportunidade única de abertura para um amplo mercado consumidor muito além dos 8 milhões de habitantes que os dois países possuem, o que torna a reeleição de FHC um fato da maior importância para assegurar tais pretensões.

Por seu lado, o candidato Fernando Henrique Cardoso desde o início de sua campanha procurou ressaltar que não iria realizar nenhuma mudança radical que pudesse ameaçar a consolidação do Mercosul. Estranhamente os outros candidatos evitaram tratar do tema.

Fora as questões mais imediatas que uma eleição deste significado representa, constatou-se um desconhecimento das questões estruturais que envolvem a consolidação do bloco econômico e que mereceriam uma atenção mais ampla e permanente por parte da mídia.

O mesmo ocorre com os jornais brasileiros que cobrem apenas os fatos relevantes e de impacto passando ao leitor a idéia que no fundo o Mercosul representa mesmo um grande acordo comercial . Em uma rápida análise é possível perceber que nossa imprensa pouco valoriza a continuidade no noticiário dos demais países.

Numa recente pesquisa intitulada "Mercosul é Notícia?", coordenada pelo professor Antonio de Andrade, da Universidade Metodista de São Paulo, foi constatado que o espaço dado pelos jornais brasileiros ao Mercosul é muito pequeno, sendo também muito regional, ou seja, quanto mais distante da fronteira, mais frágil a cobertura.

É nesse contexto fortemente marcado por um aparente desinteresse, estereótipos e desinformação, somente revertido em momentos excepcionais, como no caso analisado que nos permite concluir que ainda falta muito para que estes países estejam realmente integrados.

Este trabalho só tornou-se viável graças ao surgimento de uma nova mídia em nossa sociedade. Uma nova tecnologia de informação chamada Internet. A informatização desta nova mídia possibilita acesso imediato a jornais até antes inacessíveis ao leitor. Não foi necessário comprar jornais em uma banca especializada em títulos importados. Todas as edições pesquisadas estiveram - e ainda permanecem - arquivadas no respectivo "site" à disposição de qualquer pessoa que esteja interessada no assunto.

Ao mesmo tempo que surge uma mídia tão informatizada, nenhum jornal "on line" pesquisado aproveitou a oportunidade de ir além das eleições e transmitir aos leitores informações mais aprofundadas sobre a realidade brasileira. Ao contrário, muitas reportagens serviram somente para reforçar a idéia de que o Brasil é o país do carnaval, da cerveja , da caipirinha e das mulatas.

O mesmo exemplo se aplica à nossa imprensa que raramente aproveita as poucas reportagens que tratam do Mercosul para levar aos leitores um conhecimento mais aprofundado e crítico em relação aos vizinhos que tão pouco conhecemos. É hora de começarmos tirar proveito desta nova mídia e por fim nestes paradoxos comunicacionais existentes.

De nada adianta avançar em busca de um Mercosul somente voltado para a realização de transações comerciais. É necessário que haja, além de uma integração comercial, uma ampla integração sócio-cultural. É preciso que os desdobramentos da globalização ultrapassem os limites da economia e comece a provocar um mínimo de homogeneização cultural entre os povos, por mais difícil que isto possa parecer. Aos jornais cabe uma enorme parcela de responsabilidade neste sentido.

 

6. BIBLIOGRAFIA

  ALMANAQUE ABRIL- CD ROM. Editora Abril. São Paulo. 1999.

 MELO, José Marques de . Comunicação na América Latina. Ed.Papirus. Campinas . 1989.

 MELO, José Marques de. e LOPES, Maria Immacolata Vassalo de. (org). Políticas

Regionais de Comunicação: Os Desafios do Mercosul. Intercom. Editora UEL.

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MELO, José Marques de. Teoria da Comunicação: Paradigmas Latino-Americanos.

Editora Petropólis. Rio de Janeiro. 1998.

PRAXEDES, Walter e PILETTI ,Nelson. Mercosul e a Sociedade Global. Editora Ática.

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CLARIN DIGITAL. 1998. On line. Disponível em http://www.clarin.com.ar

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 ABC COLOR. 1998. On line. Disponível em http://www.una.py/abc/

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